Geralmente os relacionamentos são considerados seguros pela via da convergência de pensamentos, história de vida e experiências. Ou seja, quando tudo vira afinidade e gera proximidade.
Esse é um sentimento comum e recorrente. Parece que fica mais fácil se relacionar/tolerar quando a outra pessoa se parece com a gente, então idealizamos algo sem dificuldades, e permanecemos em casa.
Tendemos a querer eliminar espaços para manter um ponto de convergência, um lugar conhecido e tendencioso.
No entanto quero propor um outro arranjo: a vida como lugar de diferenciação. Uma boa intimidade pode surgir mesmo quando duas pessoas estão ocupando lugares diferentes ou mesmo quando duas histórias não são convergentes e ainda assim podem coabitar com alto grau de proximidade.
Esse é o ponto em que se revela a pedra de toque dos vínculos amadurecidos, lugar onde pode haver carinho, consideração, curiosidades e maneiras de preencher os espaços com palavras, gestos e emoção.
Imagine que você esteja em pé em meio a duas linhas paralelas que se estendem no horizonte. Do ponto de vista no qual você está parado contemplando, essas linhas parecem convergir lá adiante. Trata-se de uma ilusão de ótica bastante conhecida. Se você caminhar ao longo das linhas, buscando o ponto efetivo de convergência, irá se desapontar: as linhas nunca convergirão. O que fazer? Uma solução seria fantasiar um ponto de cruzamento para florear a realidade da situação.
E é isso que eu acho que tem acontecido nas relações entre as amizades, namoros, casamentos e afins: tendemos a querer eliminar o espaço entre as duas linhas para insistir em um ponto de convergência, onde supomos será conhecido, belo e mais fácil.
Porém, acredito que todos nós, precisamos habitar esse espaço entre as linhas. As linhas nunca se cruzam e nunca se cruzarão.
E o que acontece se passamos a aceitar esse espaço intermediário e tentamos criar algo novo, algo diferente, uma nova maneira de pensar as relações?
Martin Heidegger em seu livro – Todos nós…ninguém: um enfoque fenomenológico do social, propõe um jeito interessante de viver:
Consideração, paciência e coragem pelo devir de cada um.
O ganho está na experiência de ocupar esse espaço intermediário, na experiência compartilhada e na escuta.
Requer de nós disponibilidade em abrir mão de hábitos familiares e toda pretensão de segurança e controle.
Desse modo vamos preenchendo o caminho com novos modos de pensar e escrever a história. O que cada um faz com esse espaço é a recompensa e o benefício da coexistência.